A internet das coisas

Como tudo ao seu redor estará conectado, mudando a forma de interagir das pessoas

Há 20 anos, vivíamos o início de uma revolução: o surgimento de uma internet comercial, que disponibilizava serviços comuns de nosso dia-a-dia através de páginas HTML de forma online. A chamada WWW – World Wide Web –  nascia e se fortalecia. Era possível fazer reservas em hotéis, comprar livros e até pizzas através da web. Essa primeira grande onda da internet criou uma nova cultura global baseada na vida digital, na velocidade, na conectividade entre pessoas e máquinas, com um impacto irreversível para nossas vidas. Ninguém poderia imaginar o que veríamos nos anos seguintes. Hoje, falamos com fluência sobre computação em nuvem, redes sociais, serviços online para aluguel de filmes, espaços para armazenamento e compartilhamento de arquivos, internet banking, ensino a distância, comércio eletrônico, canais de atendimento ao consumidor, comunicação unificada pela internet e tudo isso através de desktops, tablets, notebooks, ultrabooks e outros dispositivos.

Nos dias de hoje já temos geladeiras, máquinas de lavar, semáforos de trânsito, carros, contadores de passos, televisores, prédios inteligentes, câmeras e outros hardwares ou coisas improváveis participando da internet. De fato, muitos de nós não percebeu ainda que um novo estágio de evolução da internet já começou: a chamada Internet das Coisas ou Internet Of Things (IoT).

O que são “coisas” na Internet das Coisas?

Quando falamos sobre coisas na Internet das coisas estamos literalmente falando de qualquer coisa ao nosso redor, de todas as coisas. De objetos que usamos em nosso dia-a-dia às máquinas que controlamos. De dispositivos que estão a nossa volta, até construções, casas, prédios em que habitamos ou usamos. De veículos que dirigimos até animais, pessoas ou plantas com que interagimos. De fato, qualquer coisa perto de nós poderá participar da internet das coisas.

 

E como isso pode acontecer?

Imagine um objetivo simples como uma cadeira. No mundo da internet das coisas, podemos nos referir a nossa cadeira como um objeto ou Smart Object, que deve possuir alguns atributos adicionais e importantes: conectividade, sentidos e controle.

· Conectividade: Nossa cadeira deve possuir uma identidade única na rede, o que permite que ela seja endereçada de forma única, garantindo sua passagem para o diálogo com outros participantes da internet das coisas. Para que computadores e serviços sejam endereçados na internet hoje, o atual protocolo IPv6 – Internet Protocol version 6.0– oferece uma faixa de endereçamento único tão extensa que praticamente todas as coisas poderão ser endereçadas e identificadas.

· Sensores e Sentidos: Nossa cadeira também deve possuir sentidos, que irão modificar seu comportamento ou status ao longo do tempo, permitindo que ela interaja com o meio, oferecendo informações importantes sobre o estado das coisas a sua volta. Por exemplo, nossa cadeira pode ter um sensor de pressão, indicando se ela está ocupada ou não. Sensores leitores de RFID – Radio-frequency identification ou NFC – Near field communication – poderão ampliar ainda mais os sentidos de nossa cadeira, permitindo que a identidade imediata de outros objetos ou pessoas próximas sejam capturadas e processadas pela cadeira. Nosso smart object pode realmente reconhecer quem está sentado sobre a cadeira, através da leitura de um TAG NFC ou RFID presente no bolso da pessoa que esteja sentado sobre ela.

· Controle: Finalmente, smart objects ou objetos inteligentes conectados com sensores poderão ser controlados a distância, através de comandos enviados pela internet para todos os objetos acessíveis.

A nuvem será o grande repositório de dados na internet das coisas. Através da nuvem, dispositivos em todos os lugares estarão conversando entre si, publicando informações e sendo acessados de forma imediata por pessoas e aplicações, através da internet.

O que faremos em um mundo conectado de coisas?

O céu é o limite nesse novo mundo da internet das coisas. Empresas e especialistas em tecnologia apenas tocam a superfície das possibilidades que se abrem com um mundo verdadeiramente conectado. Podemos pensar em impactos para todas as verticais de indústria, como varejo, finanças, manufatura, bens e consumo, governo, entre outras. Imaginando o que podemos fazer em um mundo conectado de coisas, veja alguns exemplos:

 

Aprendendo sobre as coisas

Na internet das coisas podemos pensar em aprender sobre qualquer coisa, bastando para isso apontar nosso smartphone para o objeto desejado, por exemplo. Imagine uma compra no supermercado: você ficou em dúvida sobre os ingredientes da sopa instantânea? Basta apontar seu dispositivo de leitura e capturar a lista fornecida pelo fabricante, possíveis receitas, a última vez que você comprou o mesmo produto, se algum amigo de sua rede social gostou do sabor, etc. Imagine que andando pelo shopping você encontra um piano na praça de alimentação. Novamente, aponte seu celular e descubra quem tocou o instrumento pela última vez, quais foram as músicas mais tocadas ou quando será a próxima apresentação. Em resumo, a internet das coisas irá abrir um completo mundo de interação entre pessoas e objetos, que irá trazer um impacto na forma como vivemos nosso dia-a-dia. O simples trocar de cartões de visita entre profissionais durante um evento poderá abrir inúmeras possibilidades de interação, como a troca de experiências, currículos, dados corporativos ou endereços, até acesso a serviços, demonstrações de projetos, vídeos, convites para redes sociais, etc. Aprender sobre o meio será uma experiência constante e interativa.

Monitorando coisas

Na internet das coisas, pacientes cardíacos poderão ser monitorados de forma remota, por médicos ou serviços de saúde. Em uma situação de emergência, o comportamento do paciente pode ser observado e um pronto atendimento providenciado de forma imediata, pelo simples atravessar de uma porta ou a partir de um elevador com sensores de saúde. Telemedicina e serviços de saúde online (e-Health) são hoje considerados como os principais beneficiários da internet das coisas no futuro próximo. Da mesma forma, o comportamento de carros, motores, aviões, até o relacionamento entre todos os veículos de uma autoestrada será possível, através de uma conectividade sem igual.

 

Buscando coisas

Na internet das coisas, motores de busca de realidade representarão a evolução dos atuais motores de busca online, como Bing e Google. Iremos realmente buscar coisas como “onde estão as chaves do meu carro?“, ou “onde deixei meu guarda-chuva?“, ou ainda dentro de um shopping center “onde está minha esposa?“. A partir de sensores e coisas identificáveis, será possível rastrear qualquer status ou objeto que permita ser rastreado, o que irá permitir o surgimento de uma nova evolução nos motores de busca atuais.

Gerenciando coisas

Com coisas conectadas, monitoradas e acessíveis, será possível gerenciar praticamente qualquer objeto através de máquinas de estado, máquinas de aprendizado, autômatos e robôs, que vão tirar proveito do poder de conexão de todas as coisas e dos dados publicados na nuvem. Imagine os diversos serviços de uma grande cidade. Linhas de metrô, ônibus municipais, redes de semáforos, iluminação pública, etc., estarão todos conectados de tal forma que a vida urbana poderá ser otimizada. Será possível a implantação de taxis automáticos, através de vias controladas, assim como uma maior gestão sobre a malha rodoviária. Tendências sobre consumo de energia em certas regiões da cidade poderão ser observadas, assim como o tráfego nas grandes vias poderá ser otimizado, evitando acidentes e congestionamentos. Em casos de desastres naturais, o pronto atendimento entre diversos serviços públicos poderá ser coordenado, a partir de uma malha de informações por toda a cidade.

 

Jogando com as coisas

Objetos inteligentes ao seu redor poderão participar de experiências no formato de jogos online, criando novas tendências para campanhas de marketing e lançamentos de produtos. Consoles como o XBOX da Microsoft já interagem através de câmeras e sensores de movimentos (KINECT SENSOR) e estão conectados a grandes redes sociais, ampliando a experiência do jogador. Na internet das coisas o ambiente irá participar ativamente da experiência do usuário, ampliando sua visão de realidade e informação do mundo ao seu redor. Outra tendência que já está presente em nossos dias é a chamada gameficação, onde o comportamento do usuário é monitorado e ele recebe selos, pontos, notas comemorativas e conquistas a partir de metas atingidas, que poderão ser compartilhadas em suas redes sociais, criando uma noção de evolução e conquista ao longo do tempo. Nesse contexto, a solução FITBIT é um exemplo de combinação entre dispositivos, aplicações e gameficação. A solução é baseada é diferentes dispositivos para captura de passos (pedômetro) e atividades realizadas durante o dia. Enquanto o dispositivo captura o número de passos que você realiza, conquistas como os primeiros 5000 passos do dia ou os 50 km atingidos na semana são desbloqueadas e podem ser compartilhadas com sua rede de amigos. Todas as informações são mantidas na nuvem e podem ser acessadas através de aplicações para desktops ou smartphones, como o Windows 8 ou Windows Phone 8.

Privacidade

Uma das preocupações atuais sobre a internet das coisas é a privacidade. É possível que esse conceito já esteja desaparecendo de fato. Num futuro conectado por coisas, a privacidade torna-se um atributo que precisa ser ativado se desejado. Seria possível controlar em que momento os objetos ao nosso redor podem interagir conosco, mas é bem provável que em muitos casos, esse controle não esteja disponível para todos em todo tempo e seremos simplesmente monitorados em todo lugar, a todo o momento.

 

Microfonia

A microfonia é um fenômeno de realimentação de áudio, que ocorre quando um microfone capta o som do dispositivo que emite o som capturado pelo próprio microfone. Esse processo gera um ruído de alta frequência, agudo e de forma crescente, até o limite do equipamento e normalmente é bem desconfortável. Na internet das coisas é possível que tenhamos um fenômeno parecido, quando milhares de objetos inteligentes ou coisas conectadas, interagindo entre si, desenvolvam comportamentos tão complexos que os seres humanos não sejam mais capazes de acompanhar, gerando uma interação igualmente desconfortável com o meio. Isso tem sido previsto por especialistas, como Ray Kurzweil e algumas alternativas para se evitar esse tipo de comportamento já estão sendo previstas. Veja mais no livro “The Age of Spiritual Machines”, por Ray Kurzweil.

Ambiente corporativo

O ambiente corporativo também será diretamente impactado pela Internet das Coisas. Novas linhas de negócio irão nascer e o ambiente de TI das empresas deverá se preparar para suportar uma infinidade de novas demandas e tipos de aplicações hoje inexistentes. Em muitas discussões de arquitetura, já temos algumas direções que apontam para um ambiente de TI orientado a serviços, suportando diferentes canais de acesso que por sua vez, serão responsáveis por diferentes categorias de objetos inteligentes da internet das coisas.

Para ilustrar uma rápida adaptação desse tipo de arquitetura de TI, veja a figura a seguir:

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Um exemplo de arquitetura de TI na internet das coisas.

 

Um futuro não tão distante

Começamos o artigo falando sobre 1993, há 20 anos, quando a internet e a WWW iniciavam seus primeiros passos, mudando a vida de pessoas e empresas ao redor do mundo. Imagine agora 20 anos no futuro. Como será nosso dia-a-dia em 2033? Hoje falamos que uma pessoa está em média rodeada por 4 ou 5 dispositivos, entre smartphones,notebooksdesktops, etc. E se em 2033 cada pessoa estiver rodeada por mais de 3 mil dispositivos, todos conectados entre si através da nuvem? Esse fenômeno já está acontecendo, com o processo constante de miniaturização de processadores, nanotecnologia, redução no consumo de energia e digitalização de eletrodomésticos, em praticamente todos os cenários do cotidiano.

A Internet das coisas já começou, já está acontecendo e irá mudar nossas vidas. O que veremos nos próximos anos irá determinar o que será viver em sociedade durante o século XXI. Nossa jornada, que iniciou com o primeiro e-mail trocado na internet no século passado, atingirá um novo estágio de comunicação, interatividade global e expansão do conhecimento humano através de todas as coisas.

Fonte: businessreviewbrasil / Por:  Waldemir Cambiucci, Diretor de Tecnologia do Microsoft Technology Center de São Paulo

 

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